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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Raiva humana: uma triste lembrança o povo do rio Acutipereira


No Dia de Finados, não poderíamos esquecer a morte de várias pessoas no rio Acutipereira, todos sob suspeita de infecção de raiva humana por morcegos. Naquele momento, em 2004, a notícia correu o mundo e O Liberal anunciou a seguinte matéria:

Chega a 13 o número de vítimas fatais da raiva humana no Pará

Faleceu ontem em Belém outra suposta vítima de raiva humana, Estelita da Silva, que estava internada no Hospital Barros Barreto. Agora são 13 mortes causadas pelos ataques de morcegos no município de Portel.
Uma nova paciente sob suspeita de estar infectada pela raiva foi transferida ontem de manhã de Portel para Belém para internação no Hospital Barros Barreto. Maria Benedita Fialho, 29, estava internada no hospital do município desde o dia 29, apresentando paralisia progressiva das pernas e dificuldade de respiração, mas só ontem a família dela deu permissão para a transferência. Este é o 19º caso sob suspeita de raiva humana no município desde o dia 9 de março. Ontem foram enterradas em Portel três vítimas da doença: os lavradores João Afonso Costa e Luís da Silva Gonçalves e o menino Maílson Silva Santos.
Moradora de uma das comunidades às margens do rio Acuti-Pereira (distante do centro urbano de Portel cerca de 45 quilômetros em linha reta), Maria Benedita chegou ao hospital do município esta semana, três meses depois de ter sido mordida por um morcego, apresentando dificuldades para andar e respirar. Ela era a última paciente presente na área do hospital, que foi isolada para receber as pessoas com suspeita de raiva.

Ontem, o estado de Maria Benedita piorou e a família consentiu que ela fosse transferida para Belém. A residente em infectologia Márcia Milene Ferreira disse que o caso de Benedita pode ser de raiva paralítica, tipo da doença normalmente transmitido por animais não-carnívoros cujo principal sintoma é a paralisia progressiva. "Mas o caso precisa ser analisado, porque a sintomatologia também pode ser de uma encefalite viral."

Outras duas pessoas com suspeita de infecção por raiva, os lavradores Benedito Afonso Costa e Alex Pereira, continuam em Portel sob observação, mas não estão internados. Os dois são moradores da área de risco, foram mordidos por morcegos e apresentam sintomas como febre e dor muscular. Mas segundo informação da Secretaria Municipal de Saúde, foram vacinados e mantinham quadro estável até ontem.
Uma grande operação foi montada no município para tentar controlar a situação, envolvendo, além da equipe da prefeitura, médicos e técnicos da Secretaria Executiva de Saúde - incluindo o titular da Sespa, Fernando Dourado -, da Fundação Nacional de Saúde e do Instituto Evandro Chagas. Desde a notificação do primeiro caso, no dia 18 de março, a estratégia tem sido vacinar todos os moradores das áreas de risco – as comunidades de Ajará, Cafezal, Tauaçu e Aparecida - ao longo do rio Acuti-Pereira. A Sespa já disponibilizou cerca de 3.800 doses de vacina para o município, sendo 1.800 vacinas humanas e 2 mil para imunização de cachorros e gatos.

Cerca de 100 pessoas provenientes das quatro localidades estão acampadas na Casa Paroquial na sede do município, para garantir que não abandonem o tratamento. No Ajará, onde moravam pelo menos dois dos mortos por suspeita de raiva, todas as pessoas abandonaram suas casas e estão na Casa Paroquial, onde recebem as vacinas e atendimento da assistência social da prefeitura.

Há ainda equipes de saúde que saem em lanchas todos os dias para o trabalho em campo ao longo do rio, realizando vacinação, fazendo a captura de morcegos e orientando a população sobre como evitar os animais e o que fazer se for mordido. "Elas são orientadas a procurar imediatamente pelos serviços de saúde e a não abandonar o tratamento. Para isso, espalhamos faixas, colocamos vinhetas nas rádios e estamos realizando palestras nos centros comunitários e com os professores rurais", diz o secretário municipal de Saúde, José Raimundo Farias. 

O coordenador de zoonoses da 4ª Regional de Saúde, Josafá Sales, um dos componentes da equipe acampada na comunidade de São Bento, completa: "Indicamos também que eles usem mosquiteiros e deixem as lamparinas acesas para evitar os ataques. Mas a dificuldade é que aqui as casas não têm porta, janela, nada."

Os que já foram agredidos pelo morcego ou tiveram contato com pessoas doentes recebem a sorovacinação em cinco doses. Os outros que não tiveram contato com o morcego, mas moram nas áreas de risco, recebem a pré-exposição, em três doses. A diferença entre um processo e outro é que o primeiro garante uma resposta imediata, por ter anticorpos puros no soro, enquanto que o segundo precisa de 15 dias para ter uma resposta máxima de imunização.

O coordenador do Núcleo de Epidemiologia da Sespa, Amiraldo Pinheiro, esteve no município, acompanhado por assessores de epidemiologia, para analisar o andamento das ações de combate, e disse ter saído satisfeito. "Há mais de cinco dias que o universo clínico se mantém no mesmo patamar, sem registro de novos casos. Acredito que a situação está em vias de controle. A secretaria municipal está realizando um bom trabalho, participando ativamente das ações de controle, o que é importante para que as estratégias sejam cumpridas a contento. O trabalho está sendo muito bom. Mas ainda é cedo para dizermos quando desmobilizaremos as equipes no município. Queremos sair daqui com o máximo de segurança possível. Por isso, já estamos avançando no rio para cumprir um raio seguro de vigilância".

A movimentação é notória entre a sede do município e as comunidades do Acuti-Pereira. Mas o clima entre a população ainda é de medo, insegurança e revolta. Um dos fundadores da comunidade São Bento, primeira na entrada no Acuti-Pereira, o lavrador Joaquim Gonçalves, 56, chorava ontem pela morte de quatro familiares. Ele era tio de Maílson Santos, João Afonso Costa, Maria da Luz Gonçalves e Luiz da Silva Gonçalves. "É muito triste a gente perder a família da gente", dizia entre lágrimas. "Minha irmã tá quase morrendo por causa da morte dos filho dela. Coitado do Luizinho, ainda tenho aqui farinha que ele me vendeu. Ele e o João Afonso deixaram não sei quantos filhos. A dona desculpe, mas acho que só tô falando
a verdade que nós nunca fomo enxergado pela saúde. Agora não posso negar que eles tão fazendo um bom trabalho, mas que adianta, se nós já tamo tudo morrendo?

Fonte: O Liberal
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