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quarta-feira, 11 de maio de 2016

O fechamento do puteiro



Era uma da madrugada. Agentes da polícia entraram de fininho, como nos filmes. O flagrante foi igual mesmo ao do FBI, a polícia americana. Dentro do quarto número um, uma jovem rapidamente envolveu o corpo num lençol e o homem apelou dizendo que tinha família, que era gente boa e até vereador evangélico de uma seita pra ricos. O flagra aconteceu também no quarto um, dois e três de um puteiro da cidade, com capacidade de dez quartos.

Foi uma batida policial num motel, ação motivada em denúncia anônima. A Polícia Civil e Militar, o Conselho Tutelar, os Direitos Humanos, a televisão, exceto vereadores e prefeito, mas o Juiz e o Promotor junto com a Defensoria Pública, todos estavam lá, inclusive a Maria Boca de Inferno, pronta pra falar em primeira mão, antes da edição das imagens da TV.

O padre falou do caso na Missa do Domingo, o Pastor excomungou e disse já ter combatido a prostituição infanto-juvenil. As escolas mandaram as crianças desenhar e os jovens e adultos falaram do assunto, mas ninguém fez nada de concreto, exceto falar mesmo. Era um caso de um motel flagranciado com três jovens em pleno ato sexual com três homens maduros e o caso foi considerado de exploração sexual de vulneráveis, ainda que duas delas tivessem até dois filhos cada.

A sociedade inteira debatia o caso, alguns pediam providências, outros queriam justiça imediata, pagamento de indenização, cadeia já, demandavam até que as notícias chegassem aos canais de tevê com alcance nacional, assim talvez as autoridades tomassem alguma medida que não fosse paliativa.

Assim, Globo, SBT, Record, noticiários online, blogs e redes sociais como Facebook, WhatsApp, Instagram, Telegram, Twitter, etc, espalharam a notícia e agentes federais se deslocaram ao local, uma cidadezinha onde o diabo perdeu as botas. Tão distante que o juiz bebia cachaça com o prefeito, o promotor andava na lancha do irmão do prefeito, o defensor andava no jatinho do amigo do prefeito, os conselheiros tutelares tinham seus parentes todos bem empregados, que a população nem acreditava em justiça.

O agente federal tomou logo a providência, lacrando os quartos um, dois e três, determinando multa ao dono do motel. Os populares acharam estranho que o motel não tivesse sido fechado de vez, porquanto os quartos de número 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 ficaram funcionando normalmente, só aguardando alguns meses até a poeira baixar pra que as mocinhas menores voltassem a frequentar.

O juiz não foi visto mais bebendo com o prefeito, o promotor tirou uma licença pra lua de mel, o defensor mudou de estado, o dono do motel passou a investir o dinheiro da prostituição no ramo de combustível, o denunciante anônimo foi localizado através do número do celular e foi preso no dia seguinte por suposto envolvimento com sua enteada de 17 anos, a imprensa não falou mais no assunto e os vereadores passavam a sessão inteira cantando parabéns uns pros outros. 

Até a Dona Maria Boca de Inferno andava chateada por não ter muita fofoca pra contar. Enfim, dois anos depois, o puteiro foi fechado, adquirido pelo prefeito para colocar naquele local um hotel três estrelas. Disso, a Maria Boca de Inferno não cansava de falar nas feiras da cidade: “três estrelas se refere às três meninas que foram pegas no puteiro”, e os pinguços, os feirantes e clientes riam a toa.
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