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terça-feira, 15 de março de 2016

Uma aventura muito doida ao Acutipereira, a terra abandonada

Hoje eu enfrentei um pouco da adversidade da vida. Não foi o pior da minha vida, pra não exagerar. Tem coisas piores. Mas são, refletidamente, ruins. No entanto, grandes lições devem ser tomadas.

Saí cedo de casa pra levar a minha esposa para o seu local de trabalho, uma escola de difícil acesso, longe à mais de 30 quilômetros. Aí se pode escolher viajar ou de barco ou de moto, mas todos são perigosos. Hoje experimentei um dos perigos dessa labuta na área da docência.

Primeiro que ontem eu fiz uma viagem tranquila pela estrada do Acutipereira, um trecho bastante conhecido por mim e por minha esposa, sobretudo porque nós dois fomos os pioneiros na exploração de um caminho no sentido de mudar a unica rota até então que era o rio. Tudo mudou quando o atual prefeito resolveu abrir a estrada do Acutipereira, um sonho antigo que nenhum dos prefeitos anteriores honrou o compromisso em atender as demandas da população da região (e olha que são no mínimo seis comunidades ligadas por terra!)

Na verdade eu pensava que seguiríamos a mesma rota, mas a minha esposa preferiu a estrada Portel Tucuruí (ou será Cametá?), e seguimos pela estrada enlameada e escorregadia, de vez em quando topando com trabalhadores que seguiam ou em direção à serrarias ilegais ou mesmo às roças (duvido-d-o-dó). Ela disse que era por essa estrada de terra preta ou de de barro - depende do trecho, pois tem pontos que a gente tem que escolher a areia e muita água -, sendo que o sol estava ainda escondido.

Quando chega ali pelo quilômetro 14, eu percebi que o kit de força da moto estava meio combalido (igual à economia do município), sem força (igual ao povo, que se cala diante te tantas irregularidades) e caminhando lentamente (igual ao pensamento dos pseudos intelectuais que não percebem que estão sendo enrab.... digo engolados). Mas segui, preferindo o caminho do Linhão, passando por debaixo de um turbilhão de energia que um dia só beneficiava os outros estados da Federação e nem Tucuruí, assim como alguns governantes que só beneficiam suas famílias, principalmente com compras acima dos reais ganhos.

É muita areia e água, derrapando constantemente e ganhando experiências no trajeto miserável que precisa de cobertura asfáltica urgentemente. Há, entretanto, muito verde, muito ar puro, mas não posso ficar cego diante da realidade cruel, sobretudo com o conhecimento dos documentos que tenho recebido ultimamente, que me faz pensar que não era pra o agricultor viver as experiências que eu tive hoje.

São vinte e sete quilômetros e mais uns dez pelo ramal e floresta. Enfim, chego na comunidade Laranjal, abandonada pelo pode público, tanto que nem direção escolar teve a ousadia de visitar os alunos, os pais ou mesmo entregar o combustível para rodar a bomba d'água e assim colocar o precioso líquido na cozinha e assim, já que não tem merenda escolar, permitir que as crianças tomem água limpa e saudável. Ali vejo meninos e meninas, todos aguardando o início das aulas. É o primeiro dia de aula, apesar de que muitos professores foram forçados a ir à região só para constar presença, pois não tem merenda, não tem combustível, os barqueiros não sabem quem são os alunos a transportar porque nem os professores têm a lista dos tais alunos.  Os absurdos me fazem pensar que o sacrifício que vou passar hoje não é nada comparado à dificuldades que essa gente passa, inclusive fome.

Eu também passei fome, sede, quase desesperando diante da solidão e da impotência de estar no meio do mato, isolado, sem comunicação e olha que não era uma situação de vida ou morte. E se fosse? Distante 12 quilômetros da vila e cerca de 30 quilômetros da cidade, eu pensava no que fazer. Decidi, então, a voltar à vila e lá pedir a alguém para me levar até a outra vila, de rabeta, onde tem acesso por estrada. Solidário, o jovem me levou, numa viagem de cerca de cinco minutos. Lá, procurei um professor para emprestar uma moto, mas o mesmo foi resoluto e não mostrou sinais de compadecimento. Uma senhora conseguiu um celular para pedir ajuda e meu cunhado enviou um mototaxi, mas este não conhecia bem a região e depois de duas comunidades visitadas, voltou à cidade. 

Caminhamos por alguns metros, acho que uns trezentos, e lá paramos para comer uma carne em conserva. Deram farinha, tucupi e até peixe assado, mostrando o outro lado da solidariedade humana. Uma senhora falou sobre o ódio propalado por algumas pessoas ligadas ao governo contra a minha pessoa, que me fez matutar sobre o conhecimento dos fatos de pessoas humildes. NO momento em que estava a comer, um dos ribeirinhos veio até nós (eu e minha esposa) para dizer que um carro preto estava a rondar pelas imediações dessa casa onde eu estava. Logo me falaram que um dos moradores, que tem carro, estava a nos procurar para dar carona até a cidade, mas voltou porque pensou que o mototaxista contratado tinha chegado.

Confesso que aquele peixe estava muito gostoso e falei à dona da casa que nunca bravejo contra os tipos de acontecimentos como o que sucedeu hoje. Saímos da casa a agradecer pela cordialidade, caminhando por duas horas até avistar um jovem mototaxista, que não era o encomendado pelo meu cunhado. Tinha ido levar um casal que estava a beber uns tragos do líquido que o passarinho não bebe na Vila Pinheiro. Bem antes disso lembro que um professor montado numa moto de corrida parou ao nosso lado para indagar o que tinha acontecido, ao que explicamos e ele disse que nos levaria até a cidade, mas não faria porque já tínhamos um mototaxista a vir nos socorrer. É bem diferente do primeiro, que não ajudou e ainda disse que a moto dele era da esposa e esta não permite emprestar a ninguém. Tudo bem.

Logo depois, cerca de vinte minutos de viagem, aparece o mototaxista que não conhecia bem a região e eu saio da garupa do outro, ficando só a minha esposa e seguimos em direção a Portel. No final, já em casa, pagamos quarenta reais, vinte para cada mototaxista. O prejuízo não parou aí, já que a peça da moto (o kit de força) custou cem reais. Mais o trabalho do mecânico, quarenta reais. Ou seja, o prejuízo foi de R$ 180,00. Fora um dia de trabalho que perdi, mas mandei uma mensagem à direção da escola contando esse drama e, quando fui comprar a peça da moto, também visitei a vice-diretora para explicar a situação complicada que vivi hoje.

Moral da história: a longa distância aos professores deve ser paga mesmo, sem desculpas esfarrapadas.
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